O Espiritismo e os Animais : Ciência ,Religião e Filosofia numa jornada de amor-pt 3

O Espiritismo e os Animais

Parte 3
 
“Se os animais inspiram somente ternura, o que houve, então,
com os homens?”
Guimarães Rosa
Nesta pequena frase de Guimarães Rosa vemos o que diferencia homens e animais, já que por tantas vezes presenciamos gestos nobres desses irmãos inferiores e gestos brutalizados por parte de alguns seres humanos, como se as almas destes estivessem invertidas, isso ocorre, pois nos ensinaram a ver os animais como selvagens, como bestas ferozes, quando na verdade ainda impera neles a força do instinto que aos poucos irá se acalmar e com o caminhar evolucionário, se transformar naquela força que já habita os seres humanos: a Moral. Nossa noção de ser humano hoje é a de que somos o “Tudo desse pequeno Planeta”, que por sermos inteligentes – somente a pouco tempo alguns aceitaram que “mecanicamente”, também pertencemos a classe animal- por temos uma noção do espaço e do tempo podemos tudo, sobre todos. Nos enxergamos como o “Centro do Universo” ignorando tudo mais a nosso redor e nos enganamos exatamente porque ainda nos desconhecemos, usamos nosso intelecto como uma arma e como um disfarce para abusarmos dos demais seres vivos, ignorando que somos iguais a eles e eles iguais a nós. E fazemos isso exatamente porque, nas raras vezes em que conseguimos nos encarar, nos descobrimos como seres moralmente fracos e finitos materialmente, muito embora acreditemos na espiritualidade , na eternidade do Espírito. Somos Espíritos(as) apegados demais a matéria, embora preguemos a vida eterna fora do corpo carnal. Que grande contradição vamos nos tornando por desconhecermos nossas próprias fraquezas e não lutarmos contra elas. É por isso que ainda hoje, apesar de todo nosso acesso ao conhecimento, continuamos nos brutalizando com a violência que praticamos com nossos irmãos animais, muitas vezes mais preparados para a vida na matéria do que nós mesmos, já que a natureza os dotou com tudo aquilo do que eles necessitam. Vivemos de lados opostos quando deveríamos viver juntos, como verdadeiros irmãos: Os animais e os homens:
592. Se compararmos o homem e os animais sob o ponto de vista da inteligência, a linha de demarcação parece difícil de se estabelecer, porque alguns animais têm, sob esse aspecto, uma superioridade notória sobre alguns homens. Essa linha pode ser estabelecida de uma maneira precisa?
R. Sobre esse ponto vossos filósofos não estão de acordo em quase nada: uns querem que o homem seja um animal e outros que o animal seja um homem; todos estão errados. O homem é um ser à parte que desce muito baixo algumas vezes, ou que pode se elevar bem alto. Fisicamente o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles; a natureza deu aos animais tudo o que o homem é obrigado a inventar com sua inteligência para satisfazer suas necessidades e sua conservação. É verdade que seu corpo se destrói como o dos animais, mas seu Espírito tem uma destinação que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente livre. Pobres homens que vos rebaixais além da brutalidade! Não sabeis vos distinguir? Reconhecei o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus.
Esse é exatamente um dos trechos onde há sempre  muita confusão na interpretação quando o Espírito diz que “o homem é um ser a parte”, muitos compreendem que os seres humanos são criações diferenciadas de Deus, que são únicos e quase perfeitos, mas sabemos que existem muitos Espíritos acima de nós que já galgaram uma atitude moral e ética superior aquela a que ainda desejamos alcançar, estamos ainda num pequeno estágio para nos acreditarmos como seres a parte em toda a Criação Divina. Somos seres “diferenciados” dos demais porque atingimos uma certa “maturidade moral e intelectual” que os espíritos que animam  os corpos dos animais ainda irão atingir com o avanço em sua evolução, o que nós torna não melhores que eles, porém mais “responsáveis por eles”, já que possuímos o conhecimento sobre Deus e sobre nosso destino após o desencarne. Ao morrerem os animais são tutelados e encaminhados as Colônias onde são cuidados e encaminhados a reencarnação, já os seres humanos permanecem na erraticidade, alguns em lugares benfazejos, outros às sombras de irmãos desviados do bem e assim permanecem por sua própria opção, o que não é permitido aos animais. Essa capacidade intelectual foi conquistada ao longo de nossa evolução e não poderá ser perdida, ela não nos foi doada por Deus para que fôssemos diferentes dos demais e os escravizássemos como fazemos aos animais, basta reconhecer as palavras do Espírito que diz : “Reconhecei o homem pelo sentimento que ele tem da existência de Deus”, para os animais nós somos os deuses, pois é esse o estágio onde esses espíritos que os animam ainda se encontram. E nós, um pouco mais capacitados, o que fazemos a eles, como deuses que lhes parecemos?

Usamos de nossa intelectualidade de irmãos mais velhos para abusarmos de seus corpos, esquecendo-nos que são nossos irmãos caçulas de caminhada. Somos seres a parte porque podemos compreender o que fazemos de bom e de mau, somos seres a parte porque diferentemente dos animais podemos optar por sermos morais ou imorais : “que desce muito baixo algumas vezes, ou que pode se elevar bem alto”, somos seres a parte porque já conquistamos esse degrau evolucionário com muito suor e ranger de dentes, mas isso não nos torna “donos” dos demais seres, nos torna apenas deuses cruéis que possuem um amor exclusivista por sua própria espécie, por sua própria família e no mais das vezes por si próprio, esquecendo que o amor não se restringe apenas ao círculo de sangue ou da espécie, mas se estende por tudo aquilo que nossos olhos enxergam, pois tudo isso é Criação Divina e deveria ser amada e respeitada como tal, afinal nós já alcançamos inteligência suficiente para concebermos um Deus de amor, um Pai que criou a todos e que ama a todos com igualdade, só precisamos olhar para nós mesmos e encontrar esse grande Pai dentro de nós e estender esse amor a todos os filhos que Ele criou. E o Espírito prossegue dizendo : “Fisicamente o homem é como os animais, e até menos dotado que muitos deles.” 

Esse trecho : ”fisicamente o homem é como os animais”, é uma séria advertência e que passa totalmente despercebida pela maioria das pessoas que estudam os Livro dos Espíritos. Ser fisicamente igual é sentir fisicamente as mesmas dores, ou seja, tanto homens quanto animais possuem uma sensibilidade idêntica a dor, talvez alguns deles ainda sofram mais do que nós, já que todos conhecemos a elevada sensibilidade física dos cavalos a qualquer tipo de dor. No entanto nos esquecemos que não existe o falacioso abate humanitário , no qual muitos irmãos ainda se escudam. O medo, tanto em humanos quanto em animais, causa liberação de inúmeros males, muitos se urinam e defecam quando estão com medo, assim ocorre também com os animais. Vamos, por poucos segundos já que não suportaríamos mais do que isso, nos colocar no lugar dos animais que vão para o abate ou no lugar daqueles que ficam meses e meses engaiolados ou no lugar daqueles que têm usurpadas suas crias em benefício de uma única espécie. A dor é idêntica em humanos e em animais.

O que significa a dolorosa verdade de que não somos seres a parte na criação Divina e que, como nos coloca Nietzsche,  nossa inteligência de nada nos servirá se um dia a espécie humana desaparecer :

 “No desvio de algum rincão do universo inundado pelo fogo de inumeráveis sistemas solares, houve uma vez um planeta no qual os animais inteligentes inventaram o conhecimento. Este foi o minuto mais soberbo e mais mentiroso da  história universal , mas foi apenas um minuto. Depois de alguns suspiros da natureza, o planeta congelou-se e os animais inteligentes tiveram de morrer [1].

Se fôssemos seres a parte na Criação Divina, deveríamos começar a desconfiar de um deus que se diz amor e que no entanto cria duas raças distintas, uma para nascer, sofrer e morrer e a outra apenas para reinar e matar aqueles que não obtiveram desse deus uma minúscula parte de seu amor.  O que talvez nos diferencie dos animais, mas que coloca sobre nossos ombros uma grande responsabilidade, é o fato de já conhecermos, como nos coloca o Espírito, o que nos ocorre após a morte, seja em qual religião for : “ uma destinação que somente ele pode compreender, porque apenas o homem é completamente livre”.
Somos completamente livres, até mesmo aqueles que não acreditam em Deus e é isso que aumenta nossa responsabilidade, pois podemos escolher entre fazer o que é certo ou errado, seja nessa vida ou na outra, o que não podemos nunca é não escolher.

O que pode nos fazer refletir é estudarmos não apenas o Livros dos espíritos, mas compará-lo com nossa realidade. Homens e animais são iguais diante de um conceito: a senciência.

Mas o que seria um ser senciente?

Essa é a primeira questão que devemos levantar ao início desse breve estudo. Hoje, o abuso cometido contra os animais e quando falamos abuso devemos incluir neles o número altíssimo de abates de animais para a alimentação humana, se baseiam numa antiga crença de que os animais não sentem dor, não possuem inteligência e nem tampouco emoções, ou seja, não são seres sencientes, seres que podem ter emoções, sensações, vontades, etc. É isso que facilita à grande maioria das pessoas, o ato da alimentação dos corpos desses nossos irmãos. Algumas pessoas um pouco mais sensibilizadas, propuseram o falacioso Abate Humanitário, esquecendo-se de que a senciência dos nossos irmãos animais não se restringe simplesmente a dor, mas se estende ao medo intenso que padecem diante da momento de suas mortes disfarçadas, uma tortura consentida e que a grande maioria deseja, permaneça oculta da sociedade. Se tomarmos a senciência como ponto de partida e nos colocarmos no lugar da vítima, como seres sencientes que somos, veremos que não será melhor que vivamos confinados, mesmo que com boa comida. Veremos que não será vantajoso nem satisfatório que vivamos sendo furados, obrigados a ingerir medicamentos, anestesiados, abertos e costurados, mesmo que no fim de tudo sejamos eutanasiados sem dor . O medo é algo que não pode ser anestesiado, nem apagado da mente e medo nada mais é do que um reflexo da experiência da dor.

Para Darwin a relação entre a evolução das espécies ocorria em graus, o que permitiria a presença das emoções e até um certo comportamento moral nos animais:

“Nos animais inferiores vemos o mesmo princípio do prazer causado pelo contato associado ao amor. Cães e gatos manifestamente tem prazer no contato com seus donos e donas, recebendo afagos e tapinhas[…] descreveu o comportamento de dois chimpanzés, um pouco mais velhos do que os que normalmente eram trazidos a este país, quando se encontraram pela primeira vez.Eles ficaram frente a frente, tocando-se com seus lábios bastante protraídos; e cada um pôs sua mão sobre o ombro do outro.Eles então se abraçaram. Depois, ficaram em pé um com o braço por cima do ombro do outro, ergueram a cabeça, abriram a boca e gritaram de contentamento. (Darwin,2009,p.182)

A senciencia não se restringe também apenas aos animais de companhia, mas aos bois, vacas, galinhas, frangos, suínos, aos perus e chesters que perdem a vida durante a comemoração do Natal e a tantos outros irmãos marginalizados que anualmente são abatidos sem que os seres humanos levem em conta sua sensibilidade. Infelizmente para manter-se a frase “a carne nutre a carne” neste momento, seria necessário tornar a senciencia animal algo falacioso, porém a senciência é algo inegável, tornando nossa atitude para com os animais algo realmente perturbador.

 

 

Referências

 

 

Allan Kardec – Livros dos Espíritos

 

 

Charles Darwin – A Origem das Espécies

F. Nietzsche. Genealogia da Moral

Simone Nardi
Redação do Informativo Irmãos Menores Animais 

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